top of page
Buscar

Por que estamos tão ansiosos?

  • Foto do escritor: Glaucia Rogge
    Glaucia Rogge
  • 20 de jul.
  • 4 min de leitura

Um olhar da psicanálise sobre o sofrimento Contemporâneo 



Vivemos em uma época paradoxal. 

Nunca tivemos tanto acesso à informação, à tecnologia, aos recursos para facilitar a vida cotidiana e às possibilidades de comunicação. No entanto, vem se tornando mais evidente que a humanidade tem experimentado níveis cada vez mais elevados de ansiedade, exaustão emocional e sensação de insuficiência. 

Consultórios voltados aos cuidados psicológicos recebem diariamente pessoas que relatam sintomas semelhantes: dificuldade para dormir, inquietação constante, medo do futuro, incapacidade de descansar, sensação permanente de que estão atrasadas em relação à própria vida. 

Considerando tal contexto, a pergunta que se impõe é: pelo que estamos tão ansiosos? 

A resposta, pode até parecer óbvia pois costuma-se dizer que vivemos sob excessos de estímulos, de trabalho, de cobranças. O que não deixa de ser verdadeiro, porém isso não evidencia a complexidade do que nos trouxe até esse cenário social e humano, o que pode levar a buscar outros pontos de vista. 

A proposta deste artigo é trazer o olhar da psicanálise, onde essa resposta, ainda permaneça na superfície do problema. 

Portanto o convite é formular uma pergunta diferente: o que então, esse sofrimento está tentando dizer? 

Essa mudança de perspectiva é fundamental, e pode fazer rever a expectativa quanto a idéia de extermínio do sintoma. 


O sintoma não precisa ocupar o lugar de inimigo 

Na cultura contemporânea, somos incentivados a eliminar rapidamente qualquer manifestação de sofrimento ou frustração. Queremos produzir mais, ter a melhor aparência, controlar emoções, não viver rejeições, enfim, alcançar equilíbrio permanente. O contato com aquilo que frustra e angustia passa a ser entendido como uma falha. E a busca por uma experiência de vida sem qualquer tipo de desconforto, desencadeia sintomas que causam no sujeito uma sensação de erro de mal funcionamento e consequentemente, de necessidade de correção.

Para psicanálise, o sintoma, segue outro caminho. Desde Freud, ele deixa de ser visto apenas como um erro do organismo para tornar-se uma formação do inconsciente. Ele possui uma lógica, ainda que desconhecida para quem sofre. 

Isso significa que a ansiedade não é apenas um sintomas desagradável, ela pode representar uma forma pela qual algo do sujeito, inacessível à lógica consciente, insiste em aparecer. E buscar silenciar este “algo” sem escutá-lo, pode produzir alívio momentâneo, porém buscar compreendê-lo, pode abrir a possibilidade de transformação. 


A angústia não é sem objeto 

Lacan afirma que "a angústia não é sem objeto", essa formulação rompe com a ideia de que a angústia seria um sentimento completamente difuso ou sem sentido, pois existe algo que mobiliza essa experiência, ainda que o sujeito não consiga nomeá-lo imediatamente: a angústia é por algo. 

A psicanálise, e somente ela, afirma que a angústia é vista como um “motor da clínica” e nela muitas vezes encontramos pessoas que dizem: "Minha vida está boa, não há do que reclamar,…" entretanto, continuam ansiosas. E é justamente nesse ponto que a escuta psicanalítica se diferencia, pois ela entende que este sintomas tem algo a dizer e não procura convencer o paciente de que "está tudo bem". Procura compreender por que, apesar das aparências, algo permanece produzindo sofrimento. 

O filósofo Byung-Chul Han descreve nossa época como uma sociedade do desempenho. Ultrapassamos as obrigações impostas por normas externas, passamos a explorar a nós mesmos. Construindo uma lógica onde nos convencemos que precisamos ser eficientes, ser felizes, ser produtivos, aproveitar cada minuto e até o descanso torna-se uma tarefa. Isto resulta em produzir indivíduos cada vez mais endividados consigo mesmos com um ideal inalcançável, tornando a ansiedade quase uma consequência inevitável dessa lógica. 


A ilusão do controle 

Considerando a ideia de que o ser humano pouco coincide completamente consigo mesmo a teoria psicanalítica afirma, que existe uma divisão subjetiva onde o eu conhecido conscientemente não coincide com o eu inconsciente. Nem sempre sabemos por que desejamos determinadas coisas, por que repetimos certos relacionamentos ou por que fracassamos justamente quando tudo parecia caminhar bem. Há uma parte da experiência humana que escapa ao controle racional e ignorá-la, não a faz desaparecer. 

E para dar conta de tamanha complexidade da existência, talvez uma das maiores promessas da contemporaneidade seja a ideia de controle.

Aplicativos controlam nosso tempo, relógios monitoram nosso sono, cursos ensinam produtividade, as redes sociais oferecem modelos aparentemente perfeitos de felicidade. Quanto mais tentamos controlar tudo, maior parece a angústia diante daquilo que inevitavelmente escapa. O tratamento analítico, sobre esse tema, propõem um outro caminho: Não se trata de controlar a vida, mas construir uma relação diferente com aquilo que nos atravessa. 


O papel da análise 

Uma análise não oferece respostas prontas e também não promete eliminar definitivamente a angústia, ela oferece algo talvez mais valioso, um espaço onde a palavra possa produzir novos sentidos. 


Pessoa em atendimento psicanalítico
Pessoa em atendimento psicanalítico

Ao falar, o sujeito começa lentamente a reconhecer aspectos de sua própria história que permaneciam invisíveis e descobre que muitos de seus sofrimentos possuem uma lógica. Percebe que determinadas repetições não são mero acaso e com o tempo, aquilo que aparecia apenas como sintoma pode transformar-se em conhecimento e cuidado sobre si mesmo. 


Considerações finais 

A ansiedade talvez seja um dos nomes do sofrimento contemporâneo mas ela não constitui uma doença da modernidade apenas porque vivemos mais rápido. Ela também revela algo sobre nossa dificuldade de sustentar o desejo, lidar com a falta, aceitar os limites da existência e suportar a incerteza. 

O tratamento psicanalítico, não oferece fórmulas para eliminar essas experiências, ele oferece uma escuta. E talvez seja justamente isso que nossa época mais necessite: menos respostas prontas e mais espaços onde seja possível falar, ser ouvido e construir um saber singular sobre a própria vida. 



Glaucia Rogge é psicóloga e psicanalista, atendendo adolescentes e adultos nas modalidades presencial e online. Seu trabalho fundamenta-se na escuta clínica, na ética da psicanálise e no compromisso com a singularidade de cada sujeito. 


Autores que inspiram esta reflexão 

Sigmund Freud • Jacques Lacan • Antônio Quinet • Colette Soler • Michele Roman Faria • Byung-Chul Han


 
 

Glaucia Rogge - Psicóloga e Psicanalista | CRP 12/04043

© 2026 Glaucia Rogge Psicologia. Todos os direitos reservados.

bottom of page